Por Catiane Pereira*
Mesmo com avanços recentes em áreas como educação, distribuição de renda e inclusão social, as desigualdades raciais e de gênero seguem marcando a estrutura econômica brasileira. Um estudo divulgado nesta quinta-feira (15) pelo Fundo Agbara, em parceria com a Fundação Volkswagen e a ActionAid, revela que mulheres negras continuam ocupando a base da pirâmide socioeconômica no Brasil.
Os dados fazem parte do Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), levantamento que analisa indicadores de renda, trabalho, educação e moradia a partir de recortes de raça e gênero. Segundo o estudo, entre 2016 e 2023, mulheres negras receberam em média cerca de metade da renda dos homens brancos no país.
Em 2016, a renda domiciliar per capita das mulheres negras era de R$ 862,98, enquanto homens brancos registravam média de R$ 1.821,55. Em 2023, a disparidade permaneceu praticamente inalterada. Mulheres negras alcançaram renda média de R$ 1.402,18, enquanto homens brancos chegaram a R$ 2.844,21.
O IJER vai de 0 a 1, sendo 1 o maior nível de justiça econômica. O indicador variou de 0,53 em 2016 para 0,59 em 2023. Os homens brancos registraram os melhores resultados da série histórica, com índices entre 0,67 e 0,69, cerca de 18% acima da média nacional. Já as mulheres negras permaneceram, em média, 11% abaixo do índice nacional.
O levantamento aponta que, embora a renda média tenha aumentado para todos os grupos nos últimos anos, a hierarquia racial e de gênero se manteve intacta. Homens brancos seguem no topo dos indicadores econômicos, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, por último, mulheres negras.
Segundo os pesquisadores informaram ao portal G1, o cenário evidencia uma “pirâmide econômica rígida”, em que melhorias econômicas gerais não são suficientes para reduzir desigualdades históricas.
O debate sobre desigualdade econômica também dialoga com o Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, lançado em 2025. O documento declara que mulheres negras seguem concentradas nos maiores índices de vulnerabilidade econômica e social no Brasil e defende políticas de reparação histórica, redistribuição de renda e valorização do trabalho de cuidado. Segundo o manifesto, 63% dos lares chefiados por mulheres negras vivem abaixo da linha da pobreza e quase metade delas está na informalidade, sem direitos trabalhistas ou proteção social.
“O resultado é um retrato da desigualdade que nos atravessa: somos nós que sustentamos o país, mas é sobre nós que recaem os custos mais altos da exploração, da pobreza e da exclusão econômica”, afirma trecho do manifesto.
Além da diferença racial, o estudo também mostra disparidades de gênero. Em média, mulheres brasileiras recebem 78% da renda dos homens. Entre mulheres negras, porém, esse percentual cai para 59%. Já pessoas brancas possuem rendimentos médios 87% maiores do que pessoas negras no país.
O estudo também destaca que mulheres brancas apresentaram indicadores econômicos superiores aos de homens negros ao longo de todo o período analisado. Para os pesquisadores, os dados mostram como raça e gênero produzem diferentes níveis de acesso a oportunidades e direitos no Brasil.
As desigualdades aparecem de forma ainda mais evidente no mercado de trabalho. Em 2023, apenas 33,3% das mulheres negras estavam em empregos com carteira assinada, o menor percentual entre os grupos analisados. O levantamento aponta ainda maior presença desse grupo em trabalhos domésticos e ocupações informais, especialmente nas atividades relacionadas ao cuidado.
Segundo os dados, mulheres negras também concentram maiores taxas de desemprego, subocupação e informalidade. Na educação, o estudo mostra que o acesso ao ensino superior segue desigual. Mulheres brancas permanecem com maior presença em cursos de graduação e pós-graduação, enquanto pessoas negras continuam sub-representadas nas universidades, especialmente homens negros.
Entre os principais obstáculos apontados pelos pesquisadores, estão a necessidade de ingresso precoce no mercado de trabalho, a menor qualidade da educação básica, a falta de políticas de permanência estudantil e o racismo institucional presente nos espaços acadêmicos.
As disparidades também aparecem nas condições de moradia e infraestrutura. Em 2023, 31,6% das mulheres negras viviam em domicílios com fossas não ligadas à rede de esgoto. Entre mulheres brancas, o índice era de 20,7%.
O levantamento ainda identificou menor acesso das mulheres negras a bens domésticos, como máquinas de lavar, fator que amplia a sobrecarga de trabalho dentro de casa e aprofunda desigualdades relacionadas ao cuidado.
Segundo os pesquisadores, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à justiça racial e de gênero, com foco em ações afirmativas, inclusão econômica e valorização do trabalho de cuidado. O estudo aponta que avanços econômicos sem enfrentamento direto das desigualdades estruturais tendem a manter a população negra, especialmente as mulheres negras, em condições persistentes de vulnerabilidade social.
*Com informações de esginside e G1.


