Por Catiane Pereira
Uma pesquisa nacional sobre segurança pública mostra que a maioria da população defende medidas de controle da atuação policial, rejeita o armamentismo e discorda da lógica de execução sumária associada ao lema “bandido bom é bandido morto”.
O levantamento “O que pensa a população brasileira sobre segurança pública”, realizado pelo Instituto Sou da Paz em novembro de 2025, ouviu 1.115 pessoas em regiões metropolitanas de todas as regiões do país. O estudo aponta que, embora o medo da violência seja generalizado, a população demonstra preferência por políticas de segurança ligadas à prevenção, fiscalização e qualificação das forças policiais.
Entre os dados mais expressivos da pesquisa está o apoio às câmeras corporais utilizadas por policiais. Segundo o estudo, 82% dos entrevistados concordam que os equipamentos “produzem provas contra criminosos”. Apenas 32% afirmam que as câmeras atrapalham a atuação policial.
O dado aparece em meio a disputas políticas sobre a adoção das chamadas bodycams em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, onde organizações de direitos humanos e pesquisadores apontam relação entre o uso das câmeras e a redução da letalidade policial.
A pesquisa também indica que o apoio à transparência na atuação das forças de segurança convive com a rejeição a discursos de extermínio. De acordo com o levantamento, 73% concordam que pessoas acusadas de crimes devem ser julgadas, punidas e presas dentro da lei, enquanto apenas 21% apoiam a ideia de que “bandido bom é bandido morto”.
Os números sugerem que o imaginário social sobre segurança pública é menos homogêneo do que costuma aparecer em discursos políticos e redes sociais. Embora a percepção de insegurança seja alta, a maior parte dos entrevistados demonstra preferência por soluções associadas à legalidade e ao funcionamento institucional do sistema de Justiça.
A demanda por uma atuação policial mais eficiente também aparece como um dos principais consensos identificados pela pesquisa. Para 65% dos entrevistados, o país precisa de “uma polícia melhor e mais preparada”, e não necessariamente de mais policiais nas ruas.
O estudo relaciona esse posicionamento à busca por policiamento de proximidade, presença qualificada do Estado e ações capazes de enfrentar a violência cotidiana que marca a experiência urbana da população. A pesquisa mostra ainda que o medo está ligado menos a crimes violentos isolados e mais à sensação constante de vulnerabilidade nos espaços públicos.
Outro ponto que chama atenção é a rejeição ao armamentismo. Segundo a pesquisa, 77% concordam que mais armas significam mais mortes e mais violência. Além disso, 60% são contra a posse de armas de fogo em casa.
Entre as mulheres, a rejeição é ainda maior. O levantamento aponta que 69% delas são contra armas dentro de casa. O dado dialoga com o crescimento do debate público sobre feminicídio, violência doméstica e circulação de armas no país.
A pesquisa também mostra que a violência alterou hábitos da população. Mais da metade dos entrevistados afirmou ter mudado a rotina por medo da criminalidade, especialmente mulheres e moradores das capitais. Evitar sair à noite, mudar trajetos e reduzir a circulação em espaços públicos se tornaram estratégias comuns de autoproteção.
Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os resultados revelam que a população brasileira busca respostas concretas para o cotidiano da violência, mas não necessariamente soluções baseadas no confronto armado. “Existe uma base [de pessoas] majoritária aberta a argumentos de inteligência, legalidade, controle e eficácia”, diz trecho do texto.
O levantamento diz ainda que existe espaço para políticas públicas centradas em inteligência, controle da atividade policial, prevenção e proteção social, desde que conectadas à realidade vivida pela população.


