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Campanha “Quero Me Ver no Poder” chega à 4ª edição e reforça importância da representatividade nas eleições de 2026

Campanha da Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político chama atenção para a sub-representação de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, com deficiência e juventudes nos espaços de decisão

Texto: Divulgação

A democracia brasileira ainda está distante de refletir a pluralidade da população nos espaços de poder. Embora mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, juventudes e moradores das periferias representem parcelas expressivas da sociedade, esses grupos continuam enfrentando barreiras para chegar e permanecer nas instituições responsáveis por definir os rumos do país. 

É diante desse cenário que a campanha Quero Me Ver no Poder chega à sua 4ª edição, com o objetivo de ampliar o debate público sobre representação política e defender a presença de grupos historicamente excluídos nos espaços de decisão.

Criada em 2020 pela Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político, com apoio do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), a campanha propõe o fortalecimento da representação política de grupos historicamente excluídos, e desde 2022 conta com a parceria técnica e política da Revista Afirmativa.

Em 2026, a iniciativa parte de uma questão central. Se democracia significa participação popular nas decisões sobre os rumos do país, por que os espaços de poder ainda não refletem a pluralidade da população? 

José Antonio Moroni, integrante do colegiado de gestão do INESC e membro da Plataforma, afirma que a campanha nasceu da constatação de que a maioria da população brasileira continua distante dos espaços de poder.

“Não se trata apenas de sentir-se representado. É preciso estar nesses espaços. Queremos mulheres negras, indígenas, pessoas trans, trabalhadores, juventudes periféricas e outros grupos historicamente excluídos ocupando os lugares onde as decisões são tomadas. É assim que fortalecemos a democracia e caminhamos para um sistema político que reflita, de fato, a diversidade da sociedade brasileira”, afirma.

Congresso ainda não tem a cara da população brasileira

Os dados das últimas eleições gerais ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022, apesar do aumento de 36,25% no número de candidaturas auto-declaradas negras para a Câmara Federal em relação a 2018, o crescimento entre pessoas negras efetivamente eleitas foi de apenas 8,94%. O número de deputados federais autodeclarados pretos passou de 21 para 27, enquanto o de pardos aumentou de 102 para 107. 

No mesmo período, o número de deputados federais brancos caiu de 387 para 370, uma redução de 4,59%. Mesmo assim, pessoas autodeclaradas brancas continuam representando cerca de 72% dos deputados eleitos. Entre os indígenas, houve um mínimo avanço de uma para cinco cadeiras, enquanto o número de parlamentares autodeclarados amarelos passou de dois para três.

Os dados mostram que o aumento da diversidade entre as candidaturas ainda não se traduz, na mesma proporção, em representação política, mesmo após medidas como a Emenda Constitucional 111, que prevê a contagem em dobro dos votos destinados a mulheres e pessoas negras para a distribuição dos fundos eleitorais.

A desigualdade também aparece quando o recorte é de gênero. Mulheres representam 51,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022, e mais de 81,8 milhões de eleitoras, o equivalente a 52,47% do eleitorado, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar disso, elas ocupam atualmente apenas 107 das 594 cadeiras do Congresso Nacional, o equivalente a cerca de 18% dos parlamentares. No Senado, as mulheres representam 19,8% dos integrantes.

Ayala Santerio, assistente social e ativista do movimento de mulheres negras, com atuação pelo Coletivo N’zinga, destaca que a campanha também parte de uma reivindicação histórica pela presença de mulheres negras nos espaços de decisão.

“Não basta dizer que a democracia é para todas e todos se determinados corpos continuam pagando um preço muito alto para participar dela. Como mulher negra e militante, aprendi que ocupar um espaço de poder nunca é uma conquista individual. Quando uma mulher negra chega, ela carrega consigo muitas outras que vieram antes, aquelas que abriram caminhos, enfrentaram o racismo, organizaram suas comunidades e nos ensinaram que a política também é território nosso”, declara.

A sub-representação se estende à população LGBTQIAPN+. As eleições de 2022 produziram a maior bancada assumidamente LGBTQIAPN+ da história do país, com 18 parlamentares eleitos, segundo levantamento da ONG VoteLGBT. O resultado foi marcado também pela presença de diferentes identidades e marcadores sociais. Entre os eleitos estavam 16 mulheres, 14 pessoas negras e cinco pessoas trans. Apesar do avanço, essa bancada correspondeu a apenas 0,78% da Câmara, 1,23% do Senado e 1,35% das assembleias legislativas.

Voto para além do Executivo

A quarta edição do Quero Me Ver no Poder pretende chamar atenção para uma dimensão muitas vezes secundarizada no debate eleitoral. A escolha de representantes para o Legislativo tem impacto direto na formulação de leis, fiscalização dos governos e definição das prioridades políticas do país.

Para Moroni, o foco concentrado nas disputas majoritárias faz com que as eleições para o Legislativo recebam menos atenção da população e da própria cobertura jornalística.

“As pessoas costumam decidir seus representantes para a Câmara dos Deputados, o Senado e as assembleias legislativas nos últimos dias da campanha. Isso abre espaço para a influência da desinformação, do poder econômico e das máquinas políticas. Também reduz o debate sobre quais projetos de sociedade esses candidatos defendem”, avalia.

A campanha defenderá a importância do voto para além das disputas pelo Executivo, destacando o papel do Legislativo na formulação de leis, fiscalização dos governos e definição das prioridades do país. Também discutirá a representatividade de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, juventudes e outros grupos historicamente sub-representados.

Entre os temas desta edição também estão a defesa da democracia, o enfrentamento à desinformação, a violência política de raça e gênero, as fraudes às cotas eleitorais, o financiamento de campanhas e a relação entre representação política, segurança pública e proteção da vida.

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