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Deputada Renata Souza denuncia ameaças de morte e ataques racistas no Rio de Janeiro

E-mail enviado à parlamentar cita planos de ataques a escolas, incita violência contra grupos sociais e termina com hashtag de cunho político
Imagem: Reprodução Redes Sociais

Por Catiane Pereira*

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) registrou, na última sexta-feira (16), uma ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), da Polícia Civil do Rio de Janeiro, após receber um e-mail com ameaças de morte e ofensas de cunho racista.

Segundo o boletim de ocorrência, a mensagem foi enviada no dia 11 de janeiro ao e-mail institucional da parlamentar, e contém ameaças diretas à sua integridade física, além de injúrias raciais e incitação à violência contra grupos sociais. O caso foi registrado como crime de ameaça, previsto no artigo 147 do Código Penal, e como crime de preconceito racial, tipificado na Lei 7.716/1989.

De acordo com o registro policial, o autor do e-mail utilizou expressões racistas e afirmou monitorar a deputada tanto presencialmente quanto pela internet. Em um dos trechos, o remetente diz que “estouraria a cara” da parlamentar de bala caso ela não deixasse o partido em um prazo de três dias. 

A deputada também chegou a compartilhar em suas redes sociais o conteúdo da carta, na qual é chamada de “macaca parasita” que apoia “inúteis negros”. 

Segundo apuração do portal ICL Notícias, o boletim aponta ainda que o autor declarou a intenção de cometer ataques violentos contra instituições de ensino. Na mensagem, ele afirma que invadiria três escolas para assassinar pessoas negras e integrantes da comunidade LGBTQIA+. O e-mail termina com uma hashtag em referência às próximas disputas eleitorais: #Bolsonaro2026.

Para a Polícia Civil, o conteúdo apresenta discurso de ódio racial, político e ideológico, além de ameaças de violência em massa, o que ampliou a gravidade do caso e motivou a solicitação de apuração imediata.

Histórico de ameaças

Esta é a terceira vez que Renata Souza comunica ameaças de morte às autoridades. Casos semelhantes foram registrados em 2020 e em 2024. Para a deputada, a recorrência indica uma escalada da violência política direcionada a mandatos comprometidos com pautas antirracistas e de direitos humanos.

“Não irei me calar. Seguirei firme, democraticamente eleita e com um mandato atuante pela dignidade do povo”, afirmou a parlamentar. “Quando alguém se sente autorizado a ameaçar uma parlamentar eleita, é porque nossas estruturas políticas seguem adoecidas e permissivas ao ódio, alimentando uma cultura que tenta silenciar e exterminar nossos corpos.”

No registro, Renata Souza relatou temor por sua integridade física e solicitou a identificação e responsabilização criminal do autor e de possíveis envolvidos. O caso segue sob investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Violência política de raça e gênero: de Marielle Franco a Renata Souza

As ameaças de morte e os ataques racistas sofridos pela deputada estadual Renata Souza se inserem em um histórico de violência política direcionada a mulheres negras que ocupam cargos públicos no Rio de Janeiro, especialmente aquelas ligadas à defesa dos direitos humanos. O caso remete ao assassinato da vereadora Marielle Franco, morta a tiros em 2018, em um crime que expôs os riscos enfrentados por parlamentares negras que confrontam estruturas de poder no estado.

Renata Souza e Marielle Franco compartilham trajetórias políticas e pessoais semelhantes. Ambas são mulheres negras, oriundas da favela da Maré, filiadas ao PSOL e com atuação histórica em movimentos sociais. Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, Renata foi chefe de gabinete de Marielle na Câmara Municipal do Rio e decidiu disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) após o assassinato da vereadora. Eleita em 2018, foi a deputada estadual mais votada da esquerda no estado e, na Alerj, tornou-se a primeira mulher negra a presidir a Comissão de Direitos Humanos.

O assassinato de Marielle Franco ocorreu em 14 de março de 2018, após a vereadora ser seguida por criminosos desde a Lapa até o Estácio, no centro do Rio. O atentado vitimou também o motorista Anderson Gomes. As investigações apontaram que o crime teve motivação política e envolveu atuação de milícias. Os executores Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos em 2019. Em junho de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou a denúncia contra os supostos mandantes do crime, incluindo o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, seu irmão Domingos Brazão e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa. O julgamento está marcado para fevereiro de 2026.

Organizações da sociedade civil e pesquisas acadêmicas apontam que a violência política de raça e gênero não é episódica. Dados do Monitor da Violência Política de Gênero e Raça indicam que mulheres negras são as principais vítimas de ameaças, discursos de ódio e tentativas de deslegitimação no exercício do mandato. Embora a Lei 14.192, de 2021, tenha estabelecido normas para o enfrentamento da violência política de gênero, especialistas alertam para a ausência do recorte racial na legislação.

Para pesquisadoras e ativistas, casos como os de Renata Souza e outras parlamentares negras evidenciam a permanência de estratégias de intimidação contra mulheres negras eleitas, mesmo após o assassinato de Marielle Franco. A repetição de ameaças reforça o entendimento de que a violência política segue sendo utilizada como mecanismo de silenciamento e ataque à democracia.

*Com informações de ICL Notícias

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