Por Alane Reis

Acontece em Hollywood, na Rede Globo, nas grandes empresas, gabinetes de políticos, universidades, igrejas e centros religiosos em geral. Acontece nas ruas, nas esquinas, em escolas, dentro de casa, no trabalho doméstico, centros esportivos, nos consultórios médicos. São cometidos por pais, padrastos, outros homens da família. Às vezes são namorados, maridos, colegas de trabalho, chefes, treinadores, médicos, professores, desconhecidos. As mulheres são sempre vulneráveis, fragilizadas, muitas vezes ainda meninas, violadas por quem deveria protegê-las.

Diversos são os contextos de crimes sexuais, mas quase sempre a cultura e as estruturas patriarcais legitimam, protegem e naturalizam os homens abusadores, enquanto silenciam, descredibilizam e criminalizam as mulheres vítimas das violências.

As artimanhas do racismo, da pobreza, da cisheteronorma e do etarismo potencializam a força do machismo e o domínio dos homens sobre os corpos de mulheres, que se tornam culturalmente mais violáveis quando são negras, pobres, crianças, adolescentes, jovens e LBTs.

O medo, o constrangimento e o silêncio são aliados históricos destes homens. E como uma onda, um tsunami, uma avalanche de coragem feminista, e de mulheres insurgentes em geral, nos últimos anos explodem denuncias de estupros e assédios sexuais na indústria audiovisual, nos esportes, nos centros religiosos, grandes empresas em geral, em todo lugar.

Mulheres de todo o mundo se unem e se mobilizam tendo por objetivo romper o silêncio sobre os ciclos de violências sexuais em que viveram submetidas. Com este propósito, pensando especialmente nas mulheres negras da América Latina, nasceu o VidaAfrolatina. Um fundo emergente internacional que mobiliza recursos e os conecta a organizações lideradas por mulheres afrodescendentes na América Latina, a fim de incentivar ações de combate às violências sexuais e acolhimento de vítimas.

Nós, da Revista Afirmativa, orgulhosamente fizemos parte do time composto por cinco organizações negras feministas da América Latina, apoiadas no programa piloto do VidaAfrolatina ao longo de 2021. O resultado você confere nessa série de conteúdos de e para mulheres, quase todas negras, que evocam narrativas suas, nossas, e de outras tantas, em um ebó que irradia: Não mais seremos violadas!

Em seis reportagens e um curta-documentário, confira a história de mulheres negras, cis e trans, heterossexuais, lésbicas e bissexuais, estudantes, trabalhadoras domésticas, jornalistas, publicitárias, meninas, mães de família, artistas, esportistas, profissionais do sexo e tantas outras, que nos contaram suas dores e traumas.

As histórias de cada uma dessas mulheres foram ouvidas em escutas sensíveis de Andreza Cerqueira, Beatriz Almeida, Brenda Gomes, Djína Torres, I’sis Almeida, Lathara Veríssimo e Maria Sol, editadas por mim e por Jonas Pinheiro, contam com as belíssimas ilustrações de Ani Ganzala, e tem como parceria na produção dos vídeos, da Olhos Abertos Audiovisual. O resultado é essa série ebó de narrativas.

Que cada palavra insurgente que você encontrará por aqui sirva aos processos de cura das mulheres que falaram, que ouviram, que escrevemos, das que irão ler e se identificar.

Ao tempo, que estas memórias e palavras sangradas e doloridas tragam justiça e tormentos, para cada homem estuprador, abusador, violador dos corpos de mulheres.

Confira cada uma dessas abaixo:

Sobreviventes das Ruas: Mulheres Negras relatam experiências de violências sexuais em grandes cidades do Brasil

A vida nada fácil das profissionais do sexo nas esquinas da Bahia e de Sergipe

Sexo, consentimento e entusiasmo: Sobre mulheres que transam “para agradar”

Infâncias e o sexo no pagode baiano: Um dilema das famílias negras e periféricas

De frente com a “cura”: Assédio e constrangimento contra mulheres lésbicas e bissexuais em consultas médicas

Violência e abuso sexual contra mulheres nos tatames e ringues: um problema cultural nas Artes Marciais