Neste domingo, dia 17 de outubro, foi o Dia Internacional para Erradicação da Pobreza. A Afirmativa conversou com a agricultora afroecológica Luiza Cavalcante, que pratica a agroecologia no sítio Agatha

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

Imagem: Reprodução

O Brasil de 2021 tem precisado lidar com uma problemática que já há um tempo não assombrava o país com a intensidade que vemos agora. A pobreza, e, com ela, a fome da população. Entre novembro de 2019 e janeiro deste ano, Acre, Pará e Tocantins foram os únicos estados brasileiros que não registraram piora da pobreza. O levantamento foi feito por um estudo de Daniel Duque, economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre).

Considerando os índices de pobreza do Banco Mundial, a renda per capita referência para determinar a condição de pobreza extrema na pesquisa foi R$160 por mês. Os números são impacto direto da pandemia de covid-19, que já tirou a vida de mais de 600 mil pessoas no país. Entre as consequências da pandemia estão uma acelerada inflação em evidência, e o desemprego, principalmente para a parcela dos brasileiros que dependia de trabalhos informais, já que não há adaptação possível para o home office.

A insegurança alimentar tem sido uma realidade refletida em imagens como a de filas para conseguir doação de ossos, devido às constantes altas no preço da carne bovina. O consumo desta carne chegou ao menor nível em 25 anos. E também refletida no desespero de uma mãe de cinco filhos que foi presa por furtar o valor de R$21,69 em macarrão instantâneo, suco e refrigerante em um mercado porque estava com fome. 

Imagem:  Domingos Peixoto / Agência O Globo

Neste domingo, dia 17 de outubro, completaram-se 32 anos da reunião de mais de 100 mil pessoas em Paris para prestar homenagem às vítimas da pobreza extrema, violência e da fome. A data foi marcada como Dia Internacional Para Erradicação da Pobreza, quando foi proclamado que a pobreza é uma violação dos direitos humanos e colocada a necessidade de esforços concentrados para assegurar o respeito a esses direitos.

A Afirmativa conversou com Luíza Cavalcante, mulher negra de 61 anos, que se denomina agricultora afroecológica, militante do movimento de reforma agrária em Pernambuco, e prática a agroecologia no Sítio Agatha. O território é formado por três gerações de mulheres, Luíza, sua filha Nzinga, e a neta Ágatha. Localizado no assentamento Chico Mendes, no município de Tracunhaém, a agricultora ocupa o espaço, que leva o nome de sua neta, com a família desde 1997.  Dona Luiza traz a agricultura como um caminho para minimizar os impactos da negação dos direitos e da pobreza colocada à população. Plantar, e fazer isso em coletivo, é a missão do Sítio Agatha em nome do bem viver.

Revista Afirmativa: Qual a história da criação do sítio Agatha e como ela se liga com a sua? 

Luíza Cavalcante: Essa história é boa de se contar, o Sítio Agatha começa justo em 1997, na luta pela reforma agrária. Minha avó materna disse que nasceu nessas terras, que os pais dela foram arrancados de África para esta terra para serem escravizados aqui. E quando ela era criança, entre 6 e 8 anos, a mãe dela saiu para buscar água no rio e nunca voltou, nunca acharam o corpo. Ela conhecia esse lugar, esse território aqui, o Engenho Vinagre, mas desconhecia toda Tracunhaém. Aí veio a luta, a gente ficou de 1997 a 2005 na luta pela reforma agrária, pela posse da terra, em 2006 a gente inicia de posse e inicia o Sítio. Eu fiquei procurando um nome que pudesse dar ao Sítio, que falasse da luta, da fé, da retomada, que desse essa liga com a resistência, com o amor. Então, em 2011, a minha filha dá a luz a Agatha, e traz pra eu ver a bebezinha, eu peguei e saí mostrando o Sítio, e tudo ainda era começo, e ela olhava tomando posse. O olhar dela reconhecia tudo que eu mostrava, aí eu disse “oxe, o nome do Sítio é Agatha”. Então se tornou Agatha o nome do Sítio em homenagem à ela e como ela reconhecia enquanto bebezinha todo esse lugar. É muito próspero para gente ter trazido esse nome, trouxe muita luz e tudo que eu sempre desejei no nome do Sítio. Essa coisa de construir junto e acreditar em um mundo melhor. No assentamento Chico Mendes, onde o Sítio Agatha está localizado, somos 59 famílias, e esse assentamento é parte de um complexo de mais dois, conhecido como Complexo Prado. E ao todo nós iniciamos com 350 famílias, hoje estamos na faixa de 140. O Sítio Agatha nasce de um território dentro de um território.

Luíza Cavalcante, mulher negra de 61 anos, agricultora afroecológica, militante do movimento de reforma agrária
em Pernambuco – Imagem: Andrea Alice

RA: Você poderia descrever como funciona a rotina no sítio e como vocês têm encarado a atual situação do país, com o aumento do preço dos alimentos, intensificação da pobreza e como vocês têm feio para lidar com essas dificuldades? Como a agroecologia ajuda nesse processo?

LC: Então, a gente tem um bocado de trabalho, porque somos nós para dar conta de 8 hectares de terra e não é fácil, mas é importante e necessário. Tentamos plantar de tudo um pouco, a gente faz o sistema da agrofloresta, pelo menos temos tentado. Ainda não é o ideal, mas a gente vem trabalhando nesse sentido de plantar os diferentes ciclos, tanto os curtos, quanto os médios, quanto os longos, todos juntos e formando florestas. Então o sítio no entorno da casa, que é a agrovila, já tem uma floresta, a gente mora numa floresta. Aqui você encontra um bocado de coisas assim: feijão, macaxeira, batata, você encontra muitas ervas aromáticas e medicinais, hortaliças. Nesse lugar que a gente vai construindo o nosso jeito de viver, de fazer, e de se alimentar também. Hoje a gente se alimenta, a maior parte, com as coisas que plantamos. A gente também tenta comercializar, antes íamos para uma feira agroecológica, depois  nós entregamos o ponto da feira, e  agora vendemos a quem chegar, e às vezes a gente sai para levar.

“A gente não pode esperar que esse desgoverno resolva, não pode esperar que ele continue matando a gente, temos que reagir. É plantar em todo e qualquer espaço, no chão, nas paredes, em toda e qualquer vasilha, e fazer isso em mutirão”

RA: Como você descreveria o atual contexto do Brasil no cenário da pobreza, onde temos números elevados de desemprego, também nos índices de pobreza, na inflação, e imagens de pessoas em filas de ossos vêm se tornando comuns?

LC:  No dia a dia trabalhamos nós, mas a gente sempre tem um processo de mutirão para convidar outras pessoas da cidade também. Cada um traz o seu saber e aquilo vai se multiplicando, o que você constrói aqui de aprendizado, tem que levar e expandir. Nesse processo, a gente tem encontrado hoje uma maneira de enfrentamento à essa carestia, à essa pobreza toda que se instalou nesse país. Esse processo de luta vem com as hortas que foram surgindo, os sítios, essas pessoas também se prepararam no conhecimento e na prática. Aí uma maneira que a gente tem encontrado de afirmar esse lugar da agroecologia, ou ‘afroecologia’, quando  a gente enquanto mulheres negras, enquanto povo preto, compreende o nosso fazer, ele tem uma pegada a mais que isso, que é identificar a gente enquanto povo. Esse lugar de chegar na cidade, ou em qualquer lugar e dizer e mostrar para as pessoas que é possível plantar a sua comida. Uma coisa que temos trazido como ponto muito importante é isso, é o afirmar e dar o exemplo, e hoje tem grupos imensos de juventude já fazendo, isso muito me orgulha e muito me alegra, porque quando parece que a gente não tem saída, a juventude mostra a saída. Assim resgatando e acordando nas outras pessoas esse lugar do conhecimento, porque a gente nasceu e cresceu tendo um quintal para plantar, e foram tomando isso. Foram colocando os mercados, as comidas prontas e tirando a saúde e o direito de ter a terra, como um território de se alimentar. Hoje o enfrentamento que a gente está dando a pandemia e a essa fome, é dizer para as pessoas: acorda que está tudo aí dentro, vamos fazer de novo. Não tem um terreno, tem um bequinho, na periferia, onde as casinhas são agarradas, bora plantar nas paredes. É preciso que a gente faça esse enfrentamento, a gente não pode esperar que esse desgoverno resolva, não pode esperar que ele continue matando a gente, temos que reagir. Então é isso, é plantar em todo e qualquer espaço, no chão, nas paredes, em toda e qualquer vasilha e fazer isso  em mutirão, chamar o vizinho, chamar o irmão, convidar outros coletivos para fazer junto.

“A pandemia é uma responsabilidade do governo sim, o quantitativo é 100%, a gente sabe que são esses governantes que vem fazendo um desequilíbrio, são eles que decretam destruição. O povo se reúne e aponta soluções”

Sítio Agatha – Imagem: Reprodução

RA: Quanto da situação do Brasil hoje podemos considerar responsabilidade da pandemia, e quanto podemos considerar responsabilidade do governo?

LC: A pandemia é uma responsabilidade do governo sim, o quantitativo é 100%, a gente sabe que são esses governantes que vem fazendo um desequilíbrio, são eles que decretam destruição. O povo se reúne e aponta soluções, estamos sempre dizendo: “olha, o desmatamento não dá certo”, “olha, se colocar eólicas, como tem sido feito, não dá certo, está destruindo o povo, está destruindo a terra, a semente, os pássaros”. Quem é que diz que isso é desenvolvimento? Isso só vai aumentando doenças, porque a gente sabe que tem duas formas de pesquisa, há uns cientista que estão pesquisando para garantir saúde, mas há aqueles que trabalham na busca para garantir lucro para o bolso de outros. Perderam o controle, a gente tem um vírus aí que a gente não sabe como controlar, e esse vírus se expandiu. No Brasil chegou aonde está, culpa de quem? Do povo não foi. A CPI está dizendo quem são os culpados. Pessoas que deveriam ter responsabilidade de fazer a análise, a prescrição e o remédio adequado, de trazer a vacina, foram as pessoas que, mesmo sabendo que aquilo estava errado, decretaram o uso de outros medicamentos. 

“Um caminho que a gente tem é o das eleições, observar as propostas, trazer as mulheres para o poder, trazer às mulheres pretas para administrar, pois a gente que sempre administrou a pobreza”

RA: Quais caminhos você enxerga para o país sair desse estado?

LC: Um caminho que a gente tem é o das eleições, observar as propostas, trazer as mulheres para o poder, trazer às mulheres pretas para administrar, pois a gente que sempre administrou a pobreza. Sempre fomos nós, desde a senzala, é pegar um ovo e alimentar 10, de um pão alimentar 1000. A gente sabe administrar, trazer essas mulheres para o poder é fundamental, é uma saída bem estratégica dentro do modelo que a gente tem. Outra saída é o plantio mesmo, de transformar todo jarro, todo canteiro, todo  jardim, todo quintal, pegar e colocar semente, vamos plantar a comida da gente e cuidar de alimentar o povo. Nós precisamos fortalecer o Movimento Sem Terra, que está aí dando resposta, em plena fome, uma pobreza miserável e o MST dizendo, “olha a comida aqui pessoal”. Essas são saídas: ocupar, resistir e produzir. Devolver a cidade para o povo,  porque a gente ficou sem direito à cidade. 

“Nós precisamos fortalecer o movimento sem terra, que está aí dando resposta, em plena fome, uma pobreza miserável e o MST dizendo, ‘olha a comida aqui pessoal’. Essas são saídas: ocupar, resistir e produzir. Devolver a cidade para o povo,  porque a gente ficou sem direito à cidade.”