Por Patrícia Rosa
A Justiça da Bahia condenou a 23 anos e 9 meses de prisão, em regime inicial fechado, o quarto acusado do assassinato de Mãe Bernadete. Sérgio Ferreira de Jesus foi julgado no último dia 21 de outubro, no Fórum Ruy Barbosa em Salvador (BA). O réu já estava preso preventivamente enquanto aguardava o julgamento.
O crime foi analisado com quatro qualificadoras: motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e uso proibido de arma de fogo.
O terceiro acusado, Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como “BZ” ou “Buzuim”, foi a júri popular no último dia 13 de outubro. O réu foi condenado a 28 anos de prisão. O júri acatou a acusação sustentada pelo Ministério Público e reconheceu o homicídio qualificado.
Ambos os júris aconteceram mais de três anos depois do assassinato. Tanto Sérgio quanto Josevan foram apontados como executores da líder quilombola. No total, cinco homens respondem pelo caso.
Outras duas condenações ocorreram em abril
Mãe Bernadete foi assassinada com 25 tiros, em agosto de 2023, aos 72 anos. Ela morreu dentro de casa, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA). A apuração indicou que o crime foi cometido a mando de um chefe do tráfico de drogas na região. Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público da Bahia, Josevan executou a liderança junto com Arielson da Conceição Santos.
O primeiro júri relacionado ao caso aconteceu em abril deste ano e culminou com a condenação de Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos. Ambos receberam penas por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e utilização de arma de uso restrito. Arielson foi condenado a 40 anos, cinco meses e 22 dias de prisão. Marílio, apontado pela acusação como mandante do assassinato, recebeu pena de 29 anos e nove meses.
A morte da líder quilombola também demonstra uma falha do Estado. Mãe Bernadete estava inscrita no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH) desde 2019, depois de sofrer ameaças devido à sua atuação na defesa do território, bem como por sua luta por justiça pelo assassinato de seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo. Ele foi assassinado em 2017. Binho também era uma liderança na defesa do direito à terra.
Família aponta outras possíveis motivações para o crime
Na contramão da linha de investigação, a família apresenta outras ameaças que Mãe Bernadete sofria, envolvendo conflitos com empresários e fazendeiros da região relacionados ao direito ao território quilombola.
Em entrevista à Revista Afirmativa, em 2025, Jurandir Pacífico, filho de Bernadete, afirmou que “empresários e políticos poderosos estão por trás dessas mortes”.
Em outra entrevista, ele contestou a hipótese investigativa sobre incômodos da sua mãe com o tráfico da região. “Eu discordo plenamente, está faltando peça no tabuleiro de xadrez. Minha mãe não tinha nenhum problema com o tráfico. O tráfico foi pago para executá-la. Caso desse problema, como deu, a conta cairia no tráfico — como caiu. Foi tudo pensado antes.”


