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Acesso ao ensino superior depois dos 50: Homens e mulheres negras quebram barreiras em busca do diploma de graduação

Quatro histórias marcadas por trajetórias educacionais não lineares e o acesso à universidade depois de décadas fora das salas de aula
Acesso ao ensino superior depois dos 50: Homens e mulheres negras quebram barreiras em busca do diploma de graduação

Por Jamile Novaes e Patrícia Rosa

Durante anos, Neuza Soares Dória Moreira, de 62 anos, passou em frente à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) imaginando como seria estudar ali. Ela só conseguiu realizar esse sonho depois dos 50 anos. Para Nadijane Macedo, o acesso à universidade também só veio  depois dos 50, alimentando um desejo que nasceu na infância e se fortaleceu na luta por justiça pelo filho, vítima da letalidade policial. Suas histórias se cruzam com as de Marinalva de Deus, 58, e Walace Dias, 50, quando se trata do acesso ao ensino superior após a juventude. 

Quando se pensa em trajetória educacional, é comum imaginar um percurso que começa na primeira infância, atravessa a adolescência e leva ao ensino superior ainda na juventude. No entanto, a educação não precisa, necessariamente, ser um processo linear. Além disso, estamos muito longe de um cenário que ofereça igualdade de oportunidades para todas as pessoas.

Apesar dos marcos históricos conquistados pelos movimentos sociais no campo da educação – a exemplo da Lei de Cotas e da Lei 10.639 – fatores como raça, gênero e classe social ainda afetam diretamente o acesso e a permanência de milhões de brasileiros no sistema de ensino. 

Enquanto o percentual de homens negros com mais de 25 anos que possuem diploma de ensino superior é de 11,2%, entre os homens brancos a taxa chega a 25,9%, segundo levantamento do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais – CEDRA (2023). Entre as mulheres, a desigualdade se mantém, com 14,9% das negras com mais de 25 anos tendo concluído essa etapa de formação, frente a 30,3% das brancas.

Caminhando em meio às barreiras e na contramão das estatísticas, Neuza, Nadijane, Marinalva e Walace constroem suas próprias trajetórias acadêmicas e mostram que nunca é tarde para sonhar e conquistar espaços que outrora lhe foram negados.

O luto, a luta e, por fim, o autocuidado

Aos 58 anos, a soteropolitana Nadijane Macedo sempre foi um pilar de sustentação para a sua família. Desde muito nova, alimentou o desejo de cursar uma graduação na área da Economia ou do Direito, mas, com 21 anos, ficou órfã de mãe e precisou cuidar das irmãs. “Eu fui abrindo mão dos meus desejos em prol dos desejos dos outros”, conta. Depois vieram os filhos, o marido e a vida de dona de casa. Mais uma vez, seu sonho ficou adormecido em prol do cuidado que sempre dispensou aos seus entes queridos.

O sonho de cursar uma graduação acompanhou Nadijane ao longo de toda a sua vida. | Imagem: Jamile Novaes

Em 2008, a vida de Nadijane foi atravessada pela letalidade da Polícia Militar da Bahia (PMBA). Alexandre, seu filho mais velho, na época com 17 anos,  foi morto enquanto passeava de moto com alguns amigos na região de Porto Seco Pirajá, em Salvador (BA). O garoto, que, assim como a mãe, sonhava em cursar Direito e se tornar Promotor de Justiça, não teve a oportunidade de, sequer, concluir o ensino médio.

Nadijane conta que a partir dali precisou sufocar o luto para ir à luta. Ela passou a frequentar audiências e júris abertos ao público, com a perspectiva de se instrumentalizar para não permitir que o assassinato do seu filho caísse no esquecimento. “Fui à luta para entender melhor a Justiça e os nossos direitos, para saber como brigar. Mas, infelizmente, para nós, familiares, é como se a gente gritasse e ninguém ouvisse”, conta.

Foi só 10 anos depois, em 2018, que o caso foi a júri popular e resultou na condenação de um ex-policial militar a 12 anos de prisão em regime fechado por homicídio qualificado por motivo fútil e traição à emboscada. 

Nadijane é ativista e articuladora de mães e familiares de vítimas do Estado. | Imagem: Jamile Novaes

No mesmo ano, Nadijane entendeu que era hora de, finalmente, priorizar os seus desejos. Ela voltou a estudar e conquistou o certificado de conclusão do ensino médio através do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). “Eu tirei um peso de cima das costas quando eu passei a cuidar de mim, a gostar de mim. É uma outra visão”, comemora.

No início de 2026, por meio do programa Educa Mais Brasil, ela ingressou no curso de Direito da Universidade Salvador (UNIFACS) com bolsa que cobre 80% do valor da mensalidade. Desde então, Nadijane tem acumulado aprendizados e experiências, em meio aos desafios para permanecer estudando. “Eu sou portadora de fibromialgia, artrite reumatóide e tenho um problema sério na coluna. Também não é fácil voltar para a sala de aula depois de 40 anos. Mas eu vou todos os dias e gosto de chegar cedo.”

Nadijane, que já atua como articuladora de mães e familiares de vítimas do Estado para o projeto Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar, do Odara – Instituto da Mulher Negra, agora amplia sua capacidade de mobilizar pessoas para um novo espaço: foi eleita vice-líder da sua turma. “[Os colegas] queriam me colocar de líder, mas eu sei que é muita responsabilidade e ainda estou aprendendo”, comenta. 

Sem pressa e sem ultrapassar os seus limites físicos, ela sonha em chegar longe e se vê ocupando espaços importantes. “Pretendo fazer o meu mestrado, trabalhar na área e me jogar em concursos. Quem sabe eu não chego até a Defensoria [Pública do Estado da Bahia]?”. 

“Aqui é lugar de negão e eu tenho que ocupar também”

Walace Dias é um mineiro de Coronel Fabriciano (MG) que viveu a maior parte da sua vida em Belo Horizonte (MG). Ao contrário de muitos meninos negros que vivenciaram a década de 1980, ele conta que teve oportunidade de estudar durante sua infância e adolescência, mas, por decisão própria, interrompeu os estudos na sétima série. 

Ao longo da vida, Walace teve problemas com o consumo abusivo de álcool e, em 2019, quando tentou voltar a estudar pela primeira vez, a dependência impediu que ele conseguisse se manter focado. “Eu não fiquei nem um mês, porque o fervor do álcool chamando o sangue era mais forte”, relembra. Ainda em 2019, ele reuniu forças para interromper o uso do álcool.

Sóbrio e buscando um recomeço, em 2022 se matriculou no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA). Começou a ter aulas noturnas e, no início, teve dificuldades para se adaptar. “Depois eu fui pegando gosto e tendo notas expressivas. Alguns fatores na vida fizeram com que eu me tornasse um sujeito mais fechado. Estar ali foi bom, porque fui me abrindo”, conta.

Walace voltou a estudar em 2022 e concluiu os ensinos fundamental e médio através do EJA | Imagem: Jamile Novaes

Walace ainda não tinha pretensão de cursar o ensino superior. Tudo mudou quando ele foi a um encontro de profissões na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2024. “Quando eu cheguei ali, falei ‘isso aqui é lugar de negão e eu tenho que ocupar também’.”

Com a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ele foi aprovado no curso de licenciatura em Artes Visuais da UFRB, em Cachoeira (BA). Walace pediu as contas da empresa em que trabalhava como prestador de serviços gerais há seis anos e, em fevereiro de 2025, chegou ao Recôncavo Baiano para dar início à sua nova jornada.

Walace concluiu o ensino médio no EJA em 2024 e, no ano seguinte, ingressou em uma universidade federal. | Imagem: Arquivo pessoal

Em pouco mais de um ano cursando a graduação, ele coleciona experiências que ultrapassam as vivências em sala de aula. “Dinheiro eu ainda não ganhei não, mas eu conquistei muita coisa”, brinca orgulhoso. Vivendo à beira do Rio Paraguaçu, o mineiro entrou para a Associação de Canoagem de São Félix e ajudou sua equipe a conquistar o primeiro lugar na categoria 50+ masculino do campeonato Remo de Ouro. 

Cursar a graduação em um território tão marcado pela história e pela cultura negra, lhe abriu portas para fortalecer a sua identidade e autoestima enquanto homem negro, e se lançar por caminhos que nunca tinha imaginado. A convite de uma vizinha cineasta, Walace teve sua primeira experiência como ator, no filme de longa-metragem “O Segredo de Sikán”. “Era a minha primeira vez em um set de filmagens. Eu nunca tinha atuado. Estar aqui é muito bom, eu estou descobrindo muitas coisas”, avalia.

Orgulhoso, Walace exibe o troféu conquistado em campeonato de remo. | Imagem: Arquivo pessoal

Agora cursando o terceiro semestre, Walace já pensa no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Eu tenho uma vontade muito grande de pesquisar a respeito do EJA. Queria entender o que torna tão difícil o acesso de egressos ao ensino superior”, conta. Até lá, ele segue buscando dar um retorno para esses estudantes que têm uma trajetória parecida com a sua, e ainda atua como estagiário no projeto de extensão “Ler o mundo, escrever a vida: alfabetização de jovens, adultos e idosos na Bahia e Minas Gerais”, onde tem a oportunidade de atuar diretamente com esse público.

Marinalva Barbosa: entre o trabalho doméstico e a luta solitária pelo acesso à educação

A história de dona Marinalva de Deus, de 58 anos, é marcada pela ausência do acesso à educação na infância e em parte da juventude. Natural de Maragogipe (BA), ela trabalhava na zona rural desde muito cedo.

Marinalva Barbosa, ativista  e graduada em direito | Imagem: Arquivo pessoal

Ela conta que perdeu o pai ainda criança, e foi morar com a tia, mas ao chegar lá não foi matriculada na escola e teve que passar a infância toda sem acesso à sala de aula. Aos 18 anos saiu de sua cidade e, em Salvador (BA), começou a atuar como trabalhadora doméstica. Só depois disso ela conseguiu começar a estudar.

Com dificuldade e resistência, ela começou a se alfabetizar. Aos 20 anos, pegou um lápis pela primeira vez e, com o apoio de uma professora, conseguiu superar os desafios e aprender a escrever. “Minha mão era dura, então eu tive muita dificuldade de escrever, de desenhar letras. A professora, percebendo isso, pegou em minha mão e me ensinou.”

Dona Marinalva viu nos estudos uma ferramenta para sair do isolamento e da solidão do trabalho doméstico. Cada oportunidade de sair para estudar era uma forma de gozar da liberdade, de ter contato social. “Eu comecei a conhecer os livros, pra mim foi uma paixão.”

Outro ponto de luta dela foi o ativismo no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Bahia (Sindoméstico), onde atuou como diretora. A convivência no sindicato e a necessidade de buscar direitos trabalhistas para a categoria, inspiraram Marinalva a ingressar no curso de Direito. “A gente sempre tinha esse incentivo de estudar, conhecer a legislação. Isso me incentivou bastante. As mulheres negras devem buscar o conhecimento, fazer uma faculdade.”

Após o término do ensino médio, ela lutou durante 13 anos para ingressar na faculdade. Entre o trabalho e o ativismo, ela cursava pré-vestibulares para conquistar seu sonho. Aos 46 anos, foi aprovada na Faculdade Batista Brasileira, em Salvador.

Os anos no curso de Direito foram marcados por muito conhecimento, mas também por dificuldades. Estudante de uma faculdade particular, ela conseguiu desconto na mensalidade, mas, ainda assim, enfrentava desafios financeiros para concluir os pagamentos dos semestres. “Foi uma luta solitária, como muitas lutas das mulheres negras são”, afirma.

Para ela, era uma corrida contra o tempo para cumprir com as diárias do trabalho doméstico e custear as mensalidades. Com a junção da alta demanda no trabalho e as dificuldades financeiras, não conseguia participar de congressos, nem comprar todos os livros necessários, mas desistir do curso não era uma opção.

“Teve uma vez que eu disse: se eu soubesse que era tão difícil, não teria começado. E me responderam: ainda bem que você não sabia. Mas, já que comecei, achei um desaforo não terminar.”

Em 2023, ela conseguiu concluir a graduação, mas o sonho de Marinalva não terminou com o fim do curso. Sua próxima etapa é a aprovação na prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), “eu quero advogar”.

Apesar da grande conquista com a graduação, ela reflete sobre a importância de ter estrutura e apoio para permanecer na academia. Pilares que ela não teve e que tornaram o processo mais difícil e doloroso. “Eu comecei na cara e na coragem, mas não aconselho ninguém a começar assim. Busque estrutura, porque vai ser menos doloroso.”

Depois dos 50, Neuza se formou na universidade em que sempre sonhou ingressar

Depois de anos passando em frente ao portão da universidade e  imaginando como seria estar ali como aluna, Dona Neuza Soares Dória Moreira realizou .  o sonho aos 52 anos. A chegada da UFRB, em Cachoeira (BA), despertou nela um desejo que tinha guardado.

Casada, mãe e avó, apesar da alegria com a chegada da universidade na cidade, ela conta que pensava já estar com a idade avançada para começar. Ainda assim, entrou em um cursinho pré-vestibular.

Na primeira tentativa, o sonho escapou de suas mãos. Apesar de aprovada, por não entender os trâmites referentes à matrícula, ela perdeu o prazo. No ano seguinte, dona Neuza tentou o Enem pela segunda vez e foi novamente aprovada para o curso de Serviço Social.

A conquista trouxe olhares de admiração dos familiares, e o incentivo para os filhos, um deles ingressou na universidade depois do exemplo de dona Neuza. “Depois que eu me formei, meu filho tomou uma decisão: ‘Se minha mãe fez, eu não posso ficar para trás’”, ela conta orgulhosa.  

Na sala de aula, dona Neuza ainda precisou aprender a lidar com algo completamente novo para ela: o uso de computadores e ferramentas digitais. Ela conta que foi a sua maior dificuldade; sem acesso a recursos como celular e computador, ela tinha que pagar para utilizá-los e fazer os trabalhos acadêmicos. Foi quando os familiares se reuniram e a presentearam com um computador e uma impressora. “Eu ficava ali, catando minhas letrinhas, aprendendo aos poucos.” 

Aos 56 anos, ela se formou, e seus planos para o futuro são muitos. Entre eles está o desejo de continuar estudando. Ela sonha em fazer mais uma graduação, dessa vez no curso de História, além de terminar um curso de inglês e outro de música. 

Hoje, mais que celebrar a conquista, ela sonha em ver a população de sua cidade, Cachoeira, cada vez mais presente na UFRB, ocupando o espaço da universidade. “Quando eu estava, tínhamos uma turma de 54, e só três alunos eram de Cachoeira. A UFRB não é só para quem chega de fora, é para o pessoal daqui também.”

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